sábado, 3 de dezembro de 2016

Leprosos, Welles e sonhos à tarde

Há quem diga que o curta-metragem é um formato menor, uma etapa intermediária na formação do cineasta antes que chegue ao longa. Bobagem. Quem viu "Ilha das Flores" ou "La Jetée" sabe que o curta carrega tanto potencial de porrada quanto um longa. O curta está para o longa assim como o conto para o romance. É só outra forma de expressão. 

A vantagem do curta é que, quando é bom, é uma chapuletada nos sentidos (Cortázar falava que, se "um romance sempre vence por pontos, o conto deve ganhar por nocaute"). Quando é ruim, resta o consolo que acaba logo.

Vários curtas-metragens são tão bons ou melhores que muitos longas por aí. Obviamente, também há muita porcaria. E também existe o curta que representa mero exercício formalista, uma etapa da formação do diretor como mencionado.

Este é o caso de "The Hearts of the Age" ("Corações da Época" em livretradução), o primeiro filme de Orson Welles, feito em 1934 quando o diretor contava meros 19 anos. O curta, co-dirigido por William Vance e que traz a participação da primeira esposa de Welles, Virginia Nicolson, tem pouco valor para quem não seja um "completista" do grande diretor (quem vê tudo do cara porque tem que ver tudo, um fetichista). Trata-se de exercício surrealista chupado de filmes de grandes diretores da época, como Buñuel e Jean Cocteau (inspirações confessas, aliás, de Welles), bem em voga nos anos 30 e 40.

(8min, versão abaixo sem legendas, mas há pouquíssimo texto no filme)



O segundo filme é bem mais interessante. "A Casa é negra" ("Khaneh siyah ast", 1963), único filme escrito e dirigido pela poeta iraniana Forough Farrokhzad antes de sua morte em 1967. Filme lindo e porrada. Documentário poético sobre uma colônia de leprosos próxima à cidade iraniana de Tabriz, Farrokhzad justapõe imagens de desolação e esperança dos habitantes da colônia com trechos de versículos religiosos e de sua própria poesia. Fato incomum no gênero, funciona muito bem tanto como documentário quanto como filme-ensaio.

Alguns críticos descrevem "A Casa é negra" como precursor da "nova onda" do cinema iraniano que ocorreu nos anos 60 e 70, iniciada com filmes como "A Vaca" ("Gaav", 1969), de Dariush Mehrjui. O tema me interessa e o retomarei no futuro.

(21 min, versão original com legendas em inglês)



Pra finalizar, recomendo um clássico do curta "experimental" (não gosto do termo, amplo demais para descrever todo filme de narrativa não-tradicional). Apesar de pouco conhecido fora das escolas de cinema e de festivais de cinema, "Meshes of the Afternoon" (algo como "Redes da Tarde", 1943) é um clássico do curta. Obra da artista vanguardista Maya Deren, de origem ucraniana-norte-americana, e de seu marido Alexander Hammid, o filme é um dos melhores exemplos de transposição da linguagem onírica para o cinema, um herdeiro digno (agora sim) de Dalí, Buñuel e Cocteau. De narrativa não-linear, sem diálogos (conta apenas com a trilha sonora hipnotizante de Teiji Ito, acrescentada em 1959),  "Meshes" mostra personagens pouco discerníveis numa atmosfera de sonho. 

Situações se repetem sob perspectivas diferentes. Uma mulher é perseguida por uma figura de manto que carrega um espelho no lugar do rosto (a morte?). Objetos simbólicos (chave, faca) surgem em lugares inusitados. Conceitos como o espaço e a gravidade entram em suspensão. Será uma visão do futuro ou da psicologia de um artista? Já foram aventadas muitas interpretações para o significado do filme, mas o melhor ainda é assisti-lo de cabeça aberta e formular a sua. Vale muito a pena.  

(13 min, sem diálogos)




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